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** DEBATE VI ** Os juros são um péssimo instrumento de combate à inflação. Um ótimo instrumento é o câmbio estável, porém competitivo

Escrito por Gustavo, postado em 4 de Abril de 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Gustavo Antônio Galvão dos Santos *

Os juros são um péssimo instrumento contra a inflação. E em um país subdesenvolvido, então, são um instrumento completamente equivocado.

Continuação do Debate anterior (clique aqui para ler)

Que começou com o seguinte artigo (clique aqui para ler)

Explicação:

Como efeito direto, os juros aumentam os custos e os preços. Como efeito indireto podem reduzi-los. Esse efeito indireto é decorrente principalmente da valorização cambial e secundariamente da redução da renda, do emprego e dos salários. Existe ainda um efeito colateral não desejado de piora na distribuição de renda, pois a riqueza financeira, que se beneficia dos juros altos, é muito mal distribuída, como você deve estar careca de saber. Outro efeito colateral indesejado é o aumento expressivo da dívida pública.

Os juros possuem como efeito DIRETO inevitável o aumento dos preços. Isso decorre do aumento dos custos financeiros e dos custos de oportunidade, que são a própria materialidade do aumento dos juros. Isso é direto, inevitável e inquestionável.

Há também efeitos dos juros que levam indiretamente à redução dos preços. Mas esses efeitos são muito indiretos e até incertos e tênues. E mais, SÃO SEMPRE PREJUDICIAIS À SOCIEDADE.

Ora, como o efeito direto dos juros é de aumento dos preços, usar os juros para combater a inflação exige um esforço dobrado em termos de valorização cambial e ou redução dos empregos e salários. É muito melhor usar políticas que afetem os preços sem gerar redução dos empregos. E elas existem.

O aumento dos juros, além de ser um esforço redobrado como vimos acima, boicota o crescimento econômico e nosso desenvolvimento como nação, pois para alcançar um nível de desenvolvimento similar aos países desenvolvidos, precisamos crescer significativamente mais do que eles, ou seja, pelo menos 7% ao ano. Evidentemente, o aumento dos juros só pode ter efeito sobre a inflação, se gerar alguma recessão, redução significativa do crescimento e ou valorizar significativamente o câmbio. Portanto, usar os juros como instrumento prioritário para controlar a inflação significa nos condenar ao subdesenvolvimento. Mais abaixo explico isso melhor.

Essa condenação recente do Banco Central brasileiro ao subdesenvolvimento pôde ser observada na prática durante o governo FHC. Quando FHC se tornou presidente éramos a 8ª economia do mundo, quando deixou era algo entre 14ª a 16ª. Os juros foram o principal instrumento de política econômica do governo FHC. No primeiro mandato para segurar diretamente o câmbio e no segundo mandato para “manter a meta de inflação”. Nessa “brincadeira”, o Banco Central foi capaz de fazer a dívida pública passar de algo entre 70 bilhões de reais para algo em torno de 700 bilhões de reais, apesar do país ter vendido cento e tantos bilhões de reais em patrimônio, ter mantido uma relativamente baixa taxa de crescimento dos gastos públicos “primários” e de ter aumentado a “carga fiscal” a níveis inéditos!

Supostamente esse foi um dos preços pagos para manter por alguns anos uma taxa de inflação relativamente baixa, mas que no final de 2002 já estava em mais de 20% anualizada. Tanto custo por algo tão efêmero… A inflação, nesse período, foi controlada às custas dos trabalhadores, segundo o IBGE a participação da renda do trabalho no PIB caiu ano a ano a velocidade nunca antes vistas. (clique aqui para ler as tabelas) Os juros cumpriram bem o “seu papel” de afundar a renda do trabalho e explodir a dívida pública “para reduzir a inflação” como você diz…

Para entender porque usar os juros para controlar a inflação nos condena inevitavelmente ao subdesenvolvimento é preciso entender que o processo de desenvolvimento significa necessariamente crescimento nominal dos salários. E isso é ótimo! Uma das características definidoras do subdesenvolvimento são salários em média baixos.

Desenvolvimento é crescimento da renda acima da média mundial. Geralmente algo em torno de 7% ao ano em um país mais pobre. Ora, isso significa elevada taxa de expansão da demanda por trabalhadores. Portanto, desenvolvimento implica em crescimento salarial, principalmente em um país democrático, onde não é possível ameaçar sindicatos com a força bruta.

Sabemos que os preços da maioria dos setores econômicos são muito rígidos à queda. Assim uma alta taxa de crescimento econômico tende a induzir um nível de inflação relativamente mais alta do que em um país onde o crescimento é lento, pois os salários precisarão crescer. Se o banco central quiser ter uma taxa de crescimento suíça, ou quase, vetará inevitavelmente o crescimento, pois terá que estar sempre aumentando a taxa de juros para cortar o crescimento dos salários.

A situação é ainda mais nefasta ao desenvolvimento, se o câmbio for flutuante. Em um país de câmbio flutuante e meta de inflação “ambiciosa”, se a taxa de crescimento estiver acelerada, os salários estarão aumentando muito e a inflação ficará acima da meta. Para manter a meta de inflação sob controle, o Banco Central elevará os juros. Em decorrência do efeito direto inflacionário dos juros e à rigidez dos preços e salários, o banco central precisa manter um processo contínuo de aumento dos juros para tentar “controlar a inflação”. Os juros no país acabarão ficando significativamente superiores aos juros internacionais. Isso atrairá capital e valorizará o câmbio. A valorização do câmbio é um eficiente mecanismo de controle da inflação. Mas como os salários e preços são rígidos à queda, a valorização terá que ser elevada para funcionar. Ora, as margens de lucro da exportação manufatureira são geralmente muito baixas em decorrência da grande concorrência internacional, principalmente nessa nova Era Chinesa. Uma pequena valorização cambial já é capaz de acabar com a lucratividade da exportação de muitos setores, mas será pouca para manter a inflação dentro da meta.

Isso é particularmente assustador na “indústria infante”, aqueles setores de alta tecnologia que estão começando a se desenvolver no país e cujo know-how ainda está sendo aprendido. Você sabe que as industrias para se desenvolver precisam seguir uma curva de aprendizagem que pode ser relativamente demorada, o que os economistas chamam de learning by doing.

A valorização cambial faz as exportações manufatureiras e principalmente dos setores de maior tecnologia e demanda internacional crescente se estagnarem. Esses são exatamente os setores mais necessários para viabilizar uma taxa de crescimento elevada sustentável a longo prazo. Não somos um país de 20 milhões de habitantes como a Austrália que pode ter parte significativa do PIB dependendo de exportação de commodities. Com quase 200 milhões de habitantes, não poderíamos ter um PIB per capital de país desenvolvido só exportando commodities. Isso só seria possível entupindo uns 4 planetas de açúcar, carnes, minério e soja. Não há tanta demanda na Terra para isso. Os americanos, chineses e argentinos não vão deixar de produzir soja em favor do Brasil. Ninguém vai parar toda a produção de carne para que nós transformemos toda a amazônia em pasto. Nem há tanta demanda no mundo por carne.

Um país grande precisa de produção manufatureira significativa, incluindo setores de alta tecnologia. Mas a valorização do câmbio não favorece. A questão é que em um regime de metas de inflação “muito ambicioso” com câmbio flutuante, o país se verá obrigado a manter a competitividade cambial sempre piorando. Principalmente se houver choques de preços internacionais, ou componentes de gastos autônomos que cresçam apesar dos juros altos e da valorização cambial, como exportações de commodites e boom de consumo de bens duráveis a crédito decorrente de preços artificialmente baixos causados pela supervalorização cambial. Em cada choque de preços ou aumento de demanda ou salários acima do suficiente para manter a “ambiciosa” meta de inflação, os juros aumentarão e o câmbio valorizará. Entretanto, a conseqüente redução da inflação não será suficiente para recompor a competitividade perdida porque os salários e preços são rígidos à queda. É uma bola de neve que vai minando a indústria do país e reduzindo o superávit em conta corrente, que poderá se transformar em déficit. O déficit em conta corrente leva à fragilidade cambial e qualquer crise de liquidez internacional torna o país incapaz de estabilizar o câmbio e, portanto, o inflação explode e os elevados juros não poderão fazer nada, porque o capital externo passa a achar muito arriscado investir em tal país, e de fato será. O resultado é uma inflação galopante, recessão e juros altos.

No fim das contas veremos que os juros são um péssimo instrumento contra a inflação se associado a metas ambiciosas de inflação, pois ele acaba condenando o país ao subdesenvolvimento e no longo prazo traz de volta a inflação elevada. É uma política prejudicial sempre e ineficaz a longo prazo.

E se a utilização dos juros para conter a inflação não estiver associada a metas de inflação “ambiciosas”?

Se a taxa de crescimento da economia não for alta, existem outros instrumentos que podem ser usados eficientemente contra a inflação que não precisam levar à redução do crescimento ou valorização cambial. Uma delas é a fixação da taxa de câmbio em um nível desvalorizado (competitivo), como sempre fazem os países asiáticos e como fez toda a Europa no pós-Segunda-Guerra. Outras políticas eficientes são as chamadas políticas de renda e os controles parciais de preços, políticas usadas com relativamente boa eficiência na Europa, EUA e Japão do pós-Guerra.

Se a taxa de crescimento for muito elevada, a situação é outra. Por exemplo, se a taxa de crescimento da economia estiver acima de 10% ao ano, a economia poderá estar sofrendo com gargalos conjunturais de infra-estrutura ou chegando próximo do pleno emprego. Se isso acontecer. pode ser que a inflação acabe ficando muito acima do desejável. Nesse caso, pode ser conveniente aumentar os juros. Ainda assim é uma política que deve ser usada muito moderadamente, pois piora a distribuição de renda e aumenta a dívida pública. Os gargalos da infra-estrutura e de qualificação de mão-de-obra podem ser resolvidos com mais investimentos. Só o pleno emprego pode ser um momento relativamente interessante de se usar a taxa de juros para conter a demanda. Mas os keynesianos acham que mesmo aí a melhor política é a fiscal e não a monetária. Eles acham que o efeito dos juros sobre a demanda é muito incerto, instável e ineficiente e causa como efeito colateral indesejado a piora na distribuição de renda e crescimento da dívida pública. Keynesianos acham que a melhor forma de controlar o nível de atividade é a política fiscal e não os juros.

Vimos que, principalmente no caso de um país subdesenvolvido com meta de inflação “ambiciosa”, os juros são um instrumento prejudicial e ineficaz a longo prazo para contenção da inflação. A argumentação é simples, direta e bastante precisa. Muitos já falaram isso, todos estão vendo como o Banco Central brasileiro está indo na contra-mão do resto do Planeta e dos principais economistas do Mundo e do Brasil. Os indicadores macroeconômicos estão mostrando que o crescimento foi muito baixo nos últimos 10 anos, a dívida pública continua crescendo, o desemprego continua muito elevado, a valorização cambial está gerando estagnação na indústria manufatureira. Esse debate, todo foi puramente econômico eu não citei nada sobre a intenção dos diretores do Banco Central. Não é necessário e turvaria o debate econômico. Mas uma vez compreendido a argumentação econômica colocada aqui, podemos também fazer uma análise de ciência política ou sociológica e avaliar as intenções desses diretores. Como cidadão e eleitor também posso tentar teorizar sobre essas intenções. Todos nós podemos, não é?

Continuação desse debate:

Meirelles tem às mãos poder e autonomia mais do que suficientes para sabotar o desenvolvimento do Brasil e as eleições de 2010.

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25 Respostas para “** DEBATE VI ** Os juros são um péssimo instrumento de combate à inflação. Um ótimo instrumento é o câmbio estável, porém competitivo”

  1. Rodrigo Loureiro Medeiros Says:

    Caro Gustavo

    Saiu hoje, 05 de abril, na imprensa uma pesquisa que aponta para o fato de que os preços dos remédios ficaram em média 52% mais caros nos últimos 12 meses. O curioso é que tais reajustes ao longo do ano são proibidos pela Câmara Reguladora do Comércio Farmacêutico (CMED).

    Os dados são do Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM). Poder de mercado ou pressão de demanda doutor Meirelles? Em uma sociedade democrática, espera-se que o Estado regule monopólios, duopólios e oligopólios, equilibrando o jogo da assimetria de informação na arena econômica. Inclusive o oligopólio dos bancos…

    Segundo dados da FAO, em 2007, os preços dos alimentos subiram 37%. Pois bem, commodities que se encontram fora do poder de controle dos juros altos do Banco Central do Brasil.

    De acordo com Robert Skidelsky, Keynes foi o primeiro a compreender e declarar claramente que uma moeda apreciada seria uma moeda fraca (Cf. ‘Keynes’. JZE, 1999). Há pessoas que ainda não compreenderam isso no Brasil.

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  2. Heldo Siqueira Says:

    Gustavo,

    tenho um interesse torpe sobre esse tema. Digo que é torpe, pq gosto mais de discutir a lógica do que as implicações reais. A questão é que as variáveis utilizadas nos modelos macroeconômicos são incontroláveis na prática.

    Os modelos que pregoam a taxa de juros como política anti-inflacionária não se referem à taxa básica de juros (no caso a selic), mas da taxa média de lucros na economia. Supõe-se que haja implicações na taxa média de lucro por consequência de mudanças na taxa básica (o que obviamente ocorre). A questão é que na prática, essas implicações são imprevisíveis e muitas vezes ruins para a economia.

    Como disse o Lucas, o que tentam fazer os modelos é construir economias de simulação, que não necessariamente se comportam como a economia real. O que o Samuelson chamou de “uma fábula para homens crescidos”. Quer dizer, as análises podem partir dessa teoria, mas de forma nenhuma podem se restringir a ela!

    O Mário Possas salienta que alguns currículos do curso de economia se focalizam muito no instrumentalismo (micro, macro, métodos quantitativos e estatísticos), pela demanda que o profissional tem hoje por conhecer profundamente essas questões, e perdem o foco das discussões sobre como aplicá-los na análise econômica. Isso implica que temos economistas muito entendidos em matemática e em métodos estatísticos, mas muito pouco antenados nas questões da realidade, ou da utilidade dessas faculdades na análise econômica.

    Estou dando pitacos sobre essa questão, mas meus estudos em economia se restringem a uns poucos 6 anos. Na verdade, estou falando mau de pessoas que estudaram muito mais tempo que eu (o que não me deixa muito confortável, afinal é de certa forma meio arrogante), mas estou amparado por alguns autores bem mais estudados que eu.

    Já que essa discussão está por aqui há bastante tempo, apesar de não ser muito o foco do blog, (que deve estar mais interessado em propor alternativas que em analisar currículos universitários) achei interessante levantar a bola.

    Abraços

  3. Ronaldo Abreu Says:

    Bom texto Gustavo. Existem muitos preços que as taxas de juros não podem conter, como os dos metais, pois são dados em bolsas no exterior.

  4. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) Says:

    Rodrigo e Ronaldo,
    agradeço os comentários. O que vocês falaram é perfeito, os juros altos não podem afetar a inflação dos preços administrados, das commodities.
    Heldo,
    não precisa ter nem um mês de estudo de economia para se ter legitimidade para questionar qualquer coisa. Seis anos de estudo então é bastante! Mas seja, por favor, mais específico em sua pergunta para facilitar a resposta.
    O que eu disse sobre o uso da taxa de juros para controlar a inflação é válido se estamos falando de Selic ou qualquer outro tipo ou conjunto de taxa de juros.
    abraços,
    Gustavo

  5. Pedro Says:

    Concordo que é melhor controlar a inflação diminuindo gastos públicos do que usando a taxa de juros. Mas isso é tão “keynesiano” quanto neoclássico.

    Deixar os gastos altos e controlar a inflação com taxa de juros significa trocar consumo das famílias por consumo do governo. O governo pressiona a demanda, e para não aumentar os preços eu não consigo pegar um crediário nas Casas Bahia pq tá muito caro. Com todos os efeitos nefastos que o Gustavo apontou.

    Agora, discordo da crítica a respeito do aumento da dívida pública. Graças a Deus, aumentamos a dívida pública enormemente! Toda cidade brasileira deveria possui um “monumento à dívida pública”.

    Por um motivo simples: em praticamente toda sua história republicana, o governo brasileiro foi deficitário. E nunca aumentou muitos os impostos (a carga era de 24% até 1988), e a dívida pública foi baixinha, baixinha, e nunca teve que vender ativos como a Vale… que mágica, não é mesmo?

    A mágica é que o preço disso foi o país mais desigual do mundo. O governo quer gastar? Não tem jeito: imposto, dívida ou emissão de moeda. Não tinha imposto, não tinha dívida e tinha gasto… pronto, emissão de moeda, inflação. Que é um imposto que incide especialmente sobre os mais pobres, que não têm como se proteger. E o país mais desigual do mundo.

    Graças a Deus acabamos com essa monstruosidade. Ao acabar com a inflação sem reduzir gastos públicos, a primeira opção foi aumentar a dívida; quando isso ficou impraticável, passamos a aumentar impostos.

    Ninguém esqueceu que aquela “âncora cambial” louca do Plano Real foi a alternativa à ausência de equilíbrio orçamentário, certo? Claro, só daria certo se voássemos em céu de brigadeiro; todo solavanco internacional ia direto no ponto frágil dessa política. Quando descobrimos que equilíbrio fiscal era algo importante (até para fazer política fiscal contra-cíclica e estabilizar a economia sem pressionar a inflação), apenas em 1998, a bola de neve já tinha começado a rolar.

    O ponto positivo é que a taxa de juros permite calibrar melhor a política anti-inflacionária. A política fiscal é muito grosseira. Mesmo longe de uma sintonia fina perfeita, a política monetária é muito mais precisa.

    Ainda assim, várias críticas feitas ao uso da taxa Selic também valem em relação a política fiscal: não afeta preços administrados e tem impacto reduzido sobre tradeables. Políticas monetária e fiscal atuam sobre a demanda e são limitadas no combate a esses problemas.

    Acho, porém, que vc não tocou no ponto mais importante do combate à inflação: expectatiavas dos agentes e credibilidade do BC. Reajustes de preços não caem do céu; eles são decididos por pessoas (empresários, sindicatos…).

    Se está todo mundo absolutamente convencido de que a inflação vai ser zero, e o BC vai explodir o país se não for, qualquer choque vai se refletir apenas em alterações de preços relativos. À parte problemas de informação assimétrica como os apontados por Lucas, mas não há evidência que desajustes decorrentes desse problema durem mais do que algumas semanas.

    Meta de inflação ambiciosa não se traduz necessariamente em juros altos em resposta a qualquer choque. O que gera esse efeito é falta de credibilidade do BC. Se a expectativa de inflação estiver bem estabelecida em determinado nível, os indivíduos não vão jogar seus preços lá para o alto em resposta a um choque.

    Afinal, um dos determinantes da inflação é a expectativa de inflação - em outras palavras, o reconhecimento de que o BC vai cumprir a meta faz com que o custo de cumpri-la diminua imediatamente.

    Para quem acha que tudo isso é pura especulação, o Alexandre Schwartzman tem alguns trabalhos mostrando que, no Brasil hoje, o papel das expectativas sobre a inflação realizada é muito maior do que o papel dos choques.

    Ou seja, o BC aumenta os juros menos para cumprir uma “meta ambiciosa” e mais por falta de credibilidade, que não se compara à dos BCs de EUA, Reino Unido ou da Suíça… isso não é especulação, isso é o que os dados mostraram até agora.

    Concordo também com o Rodrigo sobre a necessidade de regulação em diversas áreas (esse é o meu ganha-pão!). Mas NÃO para combater a inflação, ainda que esse seja um possível efeito colateral. Na verdade, esse efeito nem vai acontecer sempre - às vezes, a regulação ideal envolve aumento de preços (ou salários) para induzir maior investimento em determinanda área. Em geral, porém, a regulação tem efeitos benéficos sobre o nível de preços.

    Há um grande problema (e é grande mesmo) em usar regulação para controlar inflação, ao invés de usar apenas para lidar com falhas de mercado, especialmente monopólios e oligopólios. Esse problema é o rent-seeking. No momento em que vc estabelecer uma câmara que decide quanto os preços podem aumentar, imediatamente 50% dos investimentos do empresariado vão ser desviados para lobby (50% foi um chute), para convencer o governo de que “meus custos aumentaram muito, deixa eu aumentar o preço!”.

    Não é trivial saber quando regulação é a melhor maneira de lidar com falhas de mercado e poder de mercado. Afinal, o próprio processo regulatório possui inúmeras falhas (além de rent seeking, o problema de informação assimetrica é bastante sério). Política de concorrência é um negócio complicado - qd é melhor deixar o mercado solto, quando é melhor regular, qd é melhor estatizar, qd é melhor fazer concessão, leilão, concorrência ex-ante e ex-post… é uma área importante e muito interessante.

    Em termos de regulação, sugiro fortemente o livro “Regulation and Development”, do Laffont (um dos economistas mais geniais de que se tem notícia) sobre como deve ser construído o arcabouço regulatório em países pobres, em oposição ao arcabouço desenvolvido considerando a existência de instituições que só os países já desenvolvidos tinham (não parece a Cepal falando?).

    Quanto a “Um país grande precisa de produção manufatureira significativa, incluindo setores de alta tecnologia”, acho que o buraco é muito mais embaixo. Não acho nem um pouco trivial saber o quanto é muito e o quanto é pouco de produção manufatureira, o preço disso, as vantagens disso. Em geral, o que há é muito voluntarismo, “temos que produzir tudo!”, “interesse estratégico!”, e pouca clareza. Fica para outro comentário.

    Abs.

  6. Rodrigo L. Medeiros Says:

    Pedro

    Em termos macroeconômicos o Estado, apesar das restrições, pode ajudar a economia nacional a se desenvolver. No que diz respeito ao seu tripé de políticas fiscal, monetária e tributária, muito já se mostrou possível em termos de estímulos ao desenvolvimento das forças produtivas. Precisamos ir além do debate “manteiga versus canhões”. Os neoclássicos sérios já ultrapassaram essa limitação há tempos. Veja o trabalho de Robert Solow, Nobel de Economia, por exemplo.

    Os gastos do governo não pressionam a demanda, pelo menos no sentido concebido pelos neoliberais. (Teoria neoclássica e neoliberalismo são duas coisas muito diferentes.) Eles podem sim induzir demanda. (Keynes foi mal-interpretado quando disse que se poderia enterrar dinheiro para fazer com que as pessoas o procurassem e gastassem, tirando consequentemente a economia da recessão.) Podem também provocar distorções.

    Vejamos bem, segundo dados do SIAFI, o governo Lula gastou R$140 bilhões com juros e amortizações da dívida pública, em 2007. Com o bolsa família, apenas R$9 bilhões. E com saneamento básico, apenas R$39 milhões… No caso do governo do presidente Lula, a preferência pela liquidez vem sendo exercida pelo poder de mercado dos bancos em prejuízo da sociedade que vive de trabalho. Um jogo de soma zero.

    Se alguém ainda tem dúvida do poder de mercado, que simplesmente procure avaliar o comportamento de conluio dos bancos através do nivelamento do spread cobrado aos tomadores de recursos. O doutor Meirelles não consegue perceber isso?

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  7. Pedro Says:

    Rodrigo, quanto ao problema do spread, pode ter certeza de que é uma das maiores dores de cabeça do BC. Conheço gente lá que se dedica a entender isso. Na página de estudos do BC, vc vai encontrar algumas pesquisas sobre o assunto. Ninguém entende como o spread caiu tão pouco com a abertura para instituições internacionais.

    A explicação tradicional é insuficiente. Primeiro, o governo, que não paga spread significativo, historicamente levou quase todo o crédito brasileiro. Já temos uma poupança privada baixa (apesar de o Gustavo discordar do conceito…); com um governo com necessidade de financiamento sempre alta, o que resta para famílias e firmas é muito pouco. Grandes empresas com acesso à diretoria do BB ou de grandes bancos conseguem emprestado o que precisam (qd o BNDES nega) e o que resta é disputado a tapa.

    À medida que vem aumentando o crédito para famílias, todo mundo pula em cima e não quer nem saber da taxa de juros - o que importa é se a prestação cabe no orçamento. Claro: o avô do cara tentou comprar uma geladeira mas guardou o dinheiro no colchão e a inflação levou tudo; o pai do cara tentou comprar mas não conseguiu empréstimo; o tio juntou para comprar mas o Collor levou. Quando o cara tem a chance de um financiamento nas Casas Bahia, tem mais é que comprar mesmo… só que, com isso, fica difícil reduzir o spread.

    Está difícil avaliar os efeitos da concorrência, ou a necessidade de regulação, nesse contexto. À medida que o crédito aumente, as coisas talvez se tornem mais claras.

    Quanto ao pagamento de juros, concordo parcialmente. A princípio, acho ótimo pagar juros - significa que, em algum momento do passado, o governo conseguiu realizar algo sem dinheiro em caixa, recorrendo a empréstimo. Se o investimento foi bem feito, o retorno para a sociedade é maior do que o pagamento de juros. Itaipu é um bom exemplo.

    A princípio, pagar muitos juros hoje deveria significar que o governo antecipou muitos gastos ontem - presumivelmente, gastos importantes para o país, gastos que não podiam esperar.

    Na prática, nem todos os gastos foram bons, e podem ter simplesmente financiado a ineficiência da máquina estatal. Além disso, a dívida foi mal administrada em diversos momentos - pelo próprio BC ou pelo Tesouro, que colocou muito peso sobre o BC.

    De qq forma, “a democracia não garante os melhores no poder, mas sim que os piores não se perpetuem nele”, certo? Os juros hj são o preço dos bons e dos maus investimentos feitos no passado.

    Abs.

  8. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) Says:

    Pedro,
    você usou outra falácia. Eu nunca disse que achava que redução de gastos públicos fosse uma boa medida contra a inflação. Essa só seria uma política a ser considerada em caso de pleno emprego, ou seja, em caso de crescimento econômico em torno de 10% por mais de 15 anos ininterruptos.
    Portanto, estamos muito longe disso, e isso não deveria estar em pauta.
    Hoje controle de inflação é câmbio estável, porém competitivo, basicamente. Há políticas de controle inflacionário complementares como investimento público pesado em infra-estrutura para reduzir os gargalos o “custo-Brasil”.
    Sobre a inflação, essa é outro equívoco da economia ortodoxa. Os equívocos são diversos, mas dois são mais significativos:
    1) vocês dizem que “a pior coisa para piorar a distribuição de renda é a inflação”. Isso não é verdade. A verdade é que a coisa que mais piora a distribuição de renda são os juros altos. A concentração de renda nunca aumentou tanto quanto depois de 1995 quando acabou a inflação (o contrário do que vocês propagandeiam). Isso óbvio, pois a inflação, é quase neutra em relação aos salários, se eles crescerem tanto quanto ela. Mas os juros é diretamente pegar do pobre e dar para o rico.
    Miguel Bruno mostrou como isso aconteceu a partir de meados dos anos 90 com a explosão dos juros:
    http://www.desempregozero.org.br/editoriais/MOMENTO_NACIONAL_2.pdf
    2)O segundo equívoco com relação a sua “teoria” da inflação é achar que ela “financiou” significativamente o Estado Brasileiro em nossos períodos e alto crescimento. A inflação é disfuncional ao financiamento público. Mais uma vez você está preso ao paradigma do PIB constante. Os investimentos e gastos públicos puderam crescer muito entre 1930 e 1980 sem grande expansão da dívida pública pelo simples e óbvio fato de que o crescimento econômico também era muito alto e consequentemente a arrecadação. E não é só a arrecadação em si, mas também o PIB pura e simplesmente, porque a medida de “tamanho da dívida” é uma medida relativa. ela é medida em relação ao PIB. Portanto, como o PIB crescia muito além de aumentar a arrecadação, aumentava o denominador do índice que media o tamanho da dívida.
    Claro que a inflação tem um papel, mas é absolutamente marginal e completamente desnecessário. A verdadeira explicação para o baixo crescimento da dívida pública entre 1930 e 1980 se deve ao crecimento econômico. Tanto é verdade que a partir de 1980 quando o PIB reduz o crescimento e a inflação explode a dívida pública também explode. Contrariando a predição de sua teoria que coloca a inflação como instrumento chave para explicação do baixo crescimento da dívida.
    abraços,
    Gustavo

  9. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) Says:

    Pedro,
    quer dizer que ninguém no banco central entende porque o spread no Brasil é tão elevado?
    fico espantado com tanta perplexidade.
    Ora, o spread é alto por 3 motivos:
    1) o juros básico é altíssimo, o spread aumenta muito mais do que proporcionalmente aos juros em decorrência de vários fatores decorrentes dos juros altos, como a baixa alavancagem bancária e a alta inadimplência (com juros muito altos a demanda por empréstimos de tomadores que podem pagar esses juros é muito pequena e, portanto, as receitas de crédito se tornam relativamente menores por volume de capital próprio).
    2) Oligopólio bancário. Quase todo o setor de bancos comerciais é dominado por 4 bancos privados e 2 bancos públicos. E os bancos públicos são induzidos a ter uma “performance financeira” similar aos bancos privados, portanto, não colocar spreads muito menores. Assim 2 bancos privados líderes definem os níveis básicos de spread e os resto segue, como em um modelo tradicional de oligopólio com empresa líder formadora de preço.
    3) no Brasil o depósito compulsório e os impostos sobre operações de crédito são relativamente maiores do que em outros países.

    Reparem que todos esses fatores se reforçam porque são proporcionais ao spread, ou até mesmo mais do que proporcionais como o aumento da inadimplência a redução da alavancagem.
    abraços

  10. Rodrigo Loureiro Medeiros Says:

    Pedro

    Você tem se revelado um bom debatedor. Podemos não concordar em alguns pontos, mas o importante é aceitarmos debater idéias, teorias e pontos de vista com calma e maturidade.

    No caso do spread bancário brasileiro, convergente em valores quando se analisa o conjunto do sistema, não há como fugir daquilo que os teóricos dos jogos chamam de “collusive behavior”. Poder de mercado e conluio são práticas que nenhum economista sério, neoclássico ou não, defende e apóia. Milton Friedman era terminantemente contrário e se recuarmos mais, Fank Knight, autor do clássico ‘R