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FED INTERROMPE CORTE NOS JUROS E MANDA RECADO AOS MERCADOS

Postado em 26 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O Federal Reserve Bank (o Banco Central dos EUA, ou FED), interrompeu a seqüência de cortes na taxa básica de juros da economia norte-americana. O aumento do índice de inflação nos EUA fez com que a autoridade monetária acendesse o sinal amarelo. O recado foi claro: futuros aumentos na taxa de juros são possíveis.

 

Como já discutido nesta coluna, a inflação de commodities, principal responsável pela escalada de preços em níveis globais, tem duas causas distintas. A primeira delas é o vigoroso crescimento econômico dos últimos anos, sobretudo pela demanda de commodities por parte da China. A segunda causa é especulação no mercado futuro de commodities. Com a crise no mercado imobiliário dos EUA, muitos investidores institucionais e fundos especulativos posicionaram-se no mercado futuro de commodities, criando uma nova bolha no mercado em questão.

 

A crise nos mercados de crédito subprime tem também relação com a política monetária empreendida pelo FED nos últimos anos. Pelo seu tamanho e por ser ainda a locomotiva do crescimento mundial, na medida em que detém os principais pólos de inovação tecnológica e o principal mercado consumidor do mundo, os EUA são o único país capaz de intervir diretamente na escalada de preços.

 

Em breve, gostemos ou não, um ajuste se fará necessário. A dúvida é se viveremos um período de “soft landing” ou de pouso forçado. Para que prevaleça a primeira opção, urge uma ação rápida, mas em doses homeopáticas, por parte do FED, no sentido do aumento das taxas de juros norte-americanas. Caso contrário, o mundo, e a periferia em especial, pagarão a fatura, que será bem indigesta.

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

 

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SEGUNDO O FMI, A CLASSE TRABALHADORA DEVE PAGAR A CONTA DO AJUSTE

Postado em 23 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou hoje que os governos latino-americanos devem “resistir” em reajustar os salários nos seus respectivos países. De acordo com Strauss-Kahn, a alta dos preços do petróleo e dos alimentos, associada a um aumento dos salários, poderia criar um ambiente inflacionário irreversível.

 

Entretanto, quais seriam as causas da escalada de preços? Uma das respostas é o formidável crescimento econômico mundial dos últimos oito anos. A demanda chinesa por commodities e petróleo puxou a elevação dos preços em escala global. Além disso, talvez haja um importante componente especulativo nos mercados de commodities.

 

De fato, as taxas de crescimento chinesas têm sido fundamentais no desempenho da economia mundial. Mas é sempre bom frisar que os EUA continuam como motor da economia global. A China ocupa a posição de plataforma de exportação para o mercado consumidor norte-americano. Ademais, os chineses financiam o déficit comercial dos EUA através da compra de títulos do tesouro norte-americano.

 

Portanto, apenas os EUA teriam capacidade individual de enfrentar este problema, através do aumento da taxa de juros básicas da sua economia. A questão é: por que o FMI não sugere que os EUA façam algo para frear o aumento de preços? Por que empurrar a conta do ajuste para a classe trabalhadora latino-americana?

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

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AS FRAGILIDADES DO REGIME DE METAS DE INFLAÇÃO

Postado em 19 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - A escalada da inflação, associada principalmente ao aumento dos preços de energia e alimentos, tem suscitado questionamentos sobre a melhor forma de combater tal fenômeno. No Brasil, a autoridade monetária utiliza o regime de metas de inflação. Neste arranjo, a meta de inflação definida pelo governo é a âncora da economia. Já as outras variáveis, dentre elas a taxa de crescimento, são de ajuste. O principal instrumento utilizado para combater o aumento de preços é a taxa de juros.

 

Entretanto, o recente surto inflacionário não está associado a pressões de demanda. Pelo contrário, trata-se de inflação de custos. Mesmo assim, o Banco Central insiste em utilizar a taxa de juros para tentar colocar a inflação dentro da meta. A estratégia é simples: criar uma deflação nos preços domésticos a tal ponto que contrabalance o aumento dos preços de produtos negociados globalmente. Mas parece que o estratagema tem fracassado.

 

O prêmio Nobel de economia, Joseph Stigltiz, em artigo publicado no jornal O Globo, condenou a utilização das taxas de juros para conter uma inflação de custos. Segundo ele, não está demonstrado empiricamente que um aumento dos juros teria impacto significativo no nível de preços internos, a ponto de contrabalançar o aumento de preços de produtos negociados mundialmente. Portanto, só um aumento absurdo, e inaceitável, das taxas de juros teria tal efeito. A única economia capaz de conter a escalada de preços através do aumento das taxas de juros seria a norte-americana. Mas, como de costume, eles passam o preço do ajuste para o resto do mundo. Assim, no fim das contas, nem uma coisa nem outra: o país perde em crescimento e não resolve a questão da inflação.

 

Haveria, em princípio, duas alternativas possíveis. A primeira delas seria intervir diretamente na Petrobras, obrigando-a a praticar preços diferentes daqueles vigentes no mercado internacional. De fato, esta medida teria um custo político alto, pois enfrentaria o interesse dos acionistas, ao fazer com que a estatal pague a fatura do ajuste. A segunda medida seria a proibição de exportação de produtos com alta de preços no mercado internacional, o que aumentaria a oferta interna dos mesmos, segurando a escalada dos preços. Neste caso, o setor em questão seria o prejudicado.

 

Caso não haja capital político para medidas contundentes como estas, caberia ao Banco Central ao menos a tarefa de não utilizar um instrumento que não possui comprovação empírica para resolver este problema. Como diz o dito popular, já que não quer ajudar, que pelo menos não atrapalhe.

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

 

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A DIFERENÇA ENTRE CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO: DE VOLTA AO DEBATE CEPALINO

Postado em 17 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O segundo mandato de Lula trouxe novamente as questões do crescimento e do desenvolvimento econômico para o centro do debate. Muitos economistas e órgãos de imprensam tratam os dois conceitos, crescimento e desenvolvimento, como sinônimos. Desta forma, o desenvolvimento seria um acúmulo quantitativo de crescimento. Entretanto, os fenômenos em questão podem não estar relacionados e, no limite, podem até mesmo ser opostos.

 

O crescimento econômico é comumente medido pela variação do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma das riquezas produzidas por um país num determinado período de tempo. Já o desenvolvimento, no sentido furtadiano do termo, está relacionado à superação da relação centro-perifeira, à diversificação do sistema industrial e a homogeneização dos padrões de consumo. O subdesenvolvimento, portanto, é caracterizado pela subordinação do país na divisão internacional do trabalho, pela falta de soberania e de capacidade de formação de centros internos de decisão e pela heterogeneidade dos padrões de consumo.

 

As economias subdesenvolvidas são marcadas, por um lado, pela presença de elites que reproduzem o padrão de consumo das elites de primeiro mundo, via apropriação de excedente e, por outro lado, pela existência de uma grande margem de marginalizados. A questão levantada desde a literatura da Cepal, com destaque, no Brasil, para Celso Furtado, é a de que o crescimento econômico per se não garante necessariamente o desenvolvimento, isto é, a homogeneização dos padrões de consumo, a diversificação da estrutura produtiva e o rompimento com a relação centro-periferia.

 

No Brasil, prevaleceu o inverso. As robustas taxas de crescimento vigentes entre 1930 e 1970 não só não foram suficientes, como tiveram efeito inverso, ou seja, a desigualdade entre ricos e pobres apenas aumentou. Desta maneira, uma política de desenvolvimento não deve apenas responder a pergunta “como crescer”, mas deve, sobretudo, enfrentar a questão “qual crescimento desejamos”, tendo em vista, por exemplo, uma política industrial voltada para a inovação, utilizando tecnologias mais intensivas em trabalho, a questão da reforma agrária, dentre outras medidas.

 

Para tanto, seria necessário um monumental esforço coordenado entre burguesia nacional, classe trabalhadora organizada e Estado, que parece difícil de ser alcançado em tempos de neoliberalismo. Se esta for uma conclusão correta, continuaremos em compasso de espera.

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

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FIDEL CASTRO ELOGIA BARACK OBAMA

Postado em 12 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O ex-presidente cubano, Fidel Castro, elogiou o candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, em artigo publicado recentemente no diário cubano Granma. Castro fez ressalvas a Obama, salientando o caráter criminoso do embargo norte-americano ao país.

 

Entretanto, o líder cubano elogiou a disposição de dialogar com os líderes cubanos sem pré-condições definidas. Obama, em discurso realizado na Fundação Nacional Cubano-Americana, principal organização de oposição ao regime cubano, garantiu que reverá a política de visitas de cubanos a ilha e a proibição de envio de remessas para famílias cubanas.

 

De fato, o candidato democrata tem demonstrado posturas mais progressistas do que a companheira de partido Hillary Clinton e do que as do candidato republicano John McCain. Obama aposta num discurso inovador à luz da política externa norte-americana dos últimos anos.

 

Resta saber se ele terá o apoio dos eleitores norte-americanos do sul e dos partidários da senadora Hillary Clinton. Além disso, apenas o tempo dirá em que medida ele enfrentará os grandes lobbies internos ligados à belicosa “diplomacia” ianque. Mesmo com todos estes poréns, Fidel tem razão: Obama é a melhor opção para os norte-americanos e para o mundo.

 

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

 

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LE MONDE SUGERE QUE FED SE INSPIRE (?) NO BC BRASILEIRO

Postado em 10 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O diário francês Le Monde publicou uma matéria, cujo título é “M. Bernanke devrait s’inspirer de la Banque centrale du Brésil” (”Bernanke deveria se inspirar no Banco Central do Brasil”; clique aqui para ler), em que destaca a qualidade (?) da política monetária do Brasil. Ainda segundo o Le Monde, o presidente do FED, Ben Bernanke, deveria se inspirar (?) na bem (?) sucedida experiência brasileira.

 

O texto elogia (!!!) a política de juros de nossa autoridade monetária, destacando o bom desempenho de alguns indicadores externos, tais como a balança comercial e a relação entre dívida externa e PIB,  assim como das contas públicas internas. Entretanto, o texto não menciona que o desempenho de tais indicadores ocorre a despeito, e não por causa, da política monetária em questão.

 

A política do Bacen de estabelecer a maior taxa de juros reais do mundo levou à apreciação da taxa de câmbio, que tem prejudicado sobremaneira o desempenho de muitos setores exportadores, como por exemplo, calçados e têxteis. Além disso, em virtude da taxa de câmbio apreciada, o saldo em transações correntes já se mostra negativo, o que desautoriza a interpretação do jornal francês.

 

No que concerne ao equilíbrio orçamentário, o argumento da matéria torna-se ainda mais frágil. Como se sabe, as aberrantes taxas de juros tupiniquins aumentam os gastos do orçamento sob a rubrica juros da dívida interna. O montante deste item chega a 8% (!) do PIB, que beneficia 70 mil famílias. Portanto, o “equilíbrio” fiscal é conseguido a despeito de tal política e com grave ônus da falência do Estado brasileiro.

 

As evidências empíricas também não suportam a hipótese de que aumento de taxas de juros sejam remédios eficazes contra aumento de preços oriundos de choques de oferta. O prêmio Nobel de Economia, Joseph Stigltiz, em artigo publicado ontem pelo jornal O Globo (”A falência das metas de inflação”), argumenta que o aumento das taxas de juros não tem conseguido evitar o aumento do nível geral de preços, principalmente nos países subdesenvolvidos, pois apenas uma recessão muito forte, com custos sociais imprevisíveis, seria capaz de criar uma deflação nos preços internos capaz de contrabalançar a escalada dos produtos com preços atrelados aos mercados internacionais.

 

Além disso, a abertura comercial tem prejudicado essencialmente os países periféricos, pois o aumento dos preços internacionais de insumos básicos contamina o nível de preços internos, o que agrava as tensões sociais internas oriundas da queda de poder aquisitivo das classes mais necessitadas. Portanto, o regime de metas de inflação, tão aclamado pelo Le Monde e pelos arautos do liberalismo, não parece ser exemplo, mas ao contrário, deve ser suprimido o mais rapidamente possível.

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

 

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OBAMA VENCE PRIMÁRIAS DEMOCRATAS: LUZ NO FIM DO TÚNEL DO IMPÉRIO?

Postado em 4 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O senador Barack Obama garantiu na noite de ontem a vitória, considerando os votos diretos, nas primárias presidenciais do Partido Democrata. Segundo contagem da rede de televisão CNN, se somarmos a estes os superdelegados que já lhe declararam apoio, o senador já é matematicamente o candidato democrata para concorrer à Casa Branca. Mas o que há de novo no “fenômeno Obama”?

 

A simples nomeação de Barack Obama já pode ser considerada um avanço dentro do cenário político norte-americano. O senador negro, de origem mulçumana e com idéias progressistas talvez represente um anseio de mudanças nos rumos da política levado à cabo pela Casa Branca nos últimos anos. Cabe aqui a ressalva de que falamos em mudanças limitadas. Certamente os EUA, com ou sem Obama, manterão sua vocação de potência hegemônica, através de suas políticas imperiais amparadas nos grandes lobbies econômicos. Mesmo assim, o senador por Illinois propõe alterações importantes nos rumos da política ianque. Como diz o dito popular, o diabo mora nos detalhe.

 

No que tange à política externa Obama garantiu que vai retirar as tropas norte-americanas do Iraque. Além disso, o candidato mostrou interesse em abrir um canal de diálogo com líderes do Irã e de Cuba. O ex-presidente cubano, Fidel Castro, em recente artigo publicado no diário cubano Granma, apesar de suas pertinentes ressalvas, ressaltou que Obama é indubitavelmente o mais progressista dos candidatos à Casa Branca.

 

No plano interno, a campanha do senador, como a dos oponentes, ainda não conseguiu ser clara sobre o que fazer em relação à crise econômica internacional. Além disso, pesa sobre a Obama a inexperiência em funções executivas. A combinação entre inexperiência e posições progressitas pode ser fatal na política dos EUA, vide a experiência vivida por John F. Kennedy. De todo modo, é um surpreendente alento saber que a maior potência do mundo poderá estar em mãos “menos piores” a partir de 2009.

 

 

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

 

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BC IGNORA SUPERÁVIT NOMINAL DAS CONTAS PÚBLICAS

Postado em 2 de Junho de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - Segundo o editorial de hoje do jornal Valor Econômico (clique aqui só para assinantes), União Estados e Municípios tiveram uma arrecadação superior a soma dos seus respectivos gastos. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o superávit atingiu a marca de 0,76% do PIB (o Produto Interno Bruto), ou R$ 61,6 bilhões.

 

Como ressalta o próprio editorial do diário, “Ao produzir um superávit nominal, o Estado brasileiro não pode ser acusado de ter uma política fiscal expansionista e, assim, de contribuir para o aquecimento da demanda agregada e, por conseqüência, para o aumento da inflação. Mesmo críticos da política fiscal do governo federal reconhecem isso.”.

 

A partir da declaração do Valor, que certamente não é um jornal de esquerda, inferimos o desatino da política monetária do Banco Central. Se o Executivo não é responsável por uma possível “pressão de demanda”, por que mantel tal política de juros?

 

O aumento do preço do petróleo e dos alimentos tem pressionado a inflação. Entretanto, o remédio amargo da taxa de juros não é o melhor antídoto para curar pressões inflacionárias oriundas de choques de preços.

 

Talvez o mais inteligente seria desenvolver políticas direcionadas - por exemplo, subsídios e investimentos em áreas específicas - para os setores envolvidos na alta dos preços. Todavia, é sabido que a taxa de juros neste patamar serve para o duplo propósito de conter a inflação e encher os cofres das grandes instituições financeiras.

 

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LIÇÕES DAS DUAS DÉCADAS DE UNIÃO EUROPÉIA

Postado em 28 de Maio de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - Martin Wolf publica hoje artigo no jornal Valor Econômico (clique aqui só para assinantes) em que exalta as conquistas da União Européia, especialmente a adoção do euro. O texto ressalta três conquistas do euro: (i) a diminuição do déficit fiscal em relação ao PIB, (ii) a diminuição das taxas de juros reais e (iii) o aumento de sua importância como reserva de valor.

 

Entretanto, o próprio autor reconhece o pífio crescimento econômico da zona do euro, menor do que em outros tempos e menor do que a dos congêneres europeus que não aderiram à moeda única, e a dificuldade em superar as assimetrias entre os diferentes países.

 

Como é sabido, a adoção de uma moeda única retira dos países a autonomia no que concerne à política monetária. Num ambiente de liberalização das finanças e supremacia do ideário liberal, pouco espaço resta para utilização da política fiscal, o que obstaculiza ainda mais as ações de política econômica.

 

Além disso, diferentes custos unitários relativos de mão-de-obra, diferentes níveis de produtividade e de fontes de dinamismo criam sérios empecilhos para o bom funcionamento do euro.

 

Portanto, o sucesso da moeda européia é relativo. Sua estabilidade e valorização foram benéficas principalmente aos mercados financeiros na medida em que estabilizaram e valorizaram os preços dos ativos. Resta saber quando virão os benefícios em termos de crescimento econômico e geração de emprego.

 

 

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O DESATINO DA MOEDA ÚNICA NA AMÉRICA DO SUL

Postado em 26 de Maio de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - O presidente Lula mencionou, no programa semanal “Café com o Presidente”, a possibilidade da criação de uma moeda única na América do Sul. Segundo Lula, a criação de uma moeda para estes países e a constituição de um Banco Central único seria o passo final para a integração do continente. Entretanto, devemos entender as reais dificuldades de tal empreendimento e os limites de suas possibilidades.

 

Em primeiro lugar, a instabilidade monetária dos países periféricos é um dado estrutural de sua condição. Esta instabilidade provém principalmente das restrições associadas ao balanço de pagamentos, vinculados, sobretudo, à composição da pauta de exportação vis-à-vis à pauta de importação. No caso destes países, a predominância de produtos primários nas exportações faz com que os termos de troca se deteriorem, ou pelo menos tenham uma maior volatilidade. Em momentos de auge do ciclo, como os que vivemos nos últimos anos, as commodities normalmente presenciam um aumento significativo dos preços. O problema é quando o ciclo reverte.

 

Além disso, o problema da pauta de exportações é exacerbado num ambiente de liberalização da conta financeira, fazendo com que a taxa de câmbio se torne ainda mais volátil. A volatilidade das principais variáveis monetárias, quais sejam a taxa de câmbio e a taxa de juros, torna hercúlea a tarefa de fazer convergir as principais variáveis macroeconômicas destes países, o que é condição sine qua non para a criação de tal moeda.

 

Portanto, a criação de uma moeda única apenas se colocaria como possibilidade concreta a partir da superação da condição periférica, no sentido furtadiano do termo, ou seja, através do rompimento com a atual divisão internacional do trabalho. Tal alternativa demandaria um nível de esforço coordenado, que incluíra capacidade de planejamento e vontade política das elites, que dificilmente poderia ser colocado em prática diante das atuais condições objetivas. Por fim, uma discussão de tal envergadura não pode ser tomada em conta isoladamente, mas, ao contrário, deveria levar em conta a questão do Desenvolvimento, sendo este visceralmente ligado à supressão da relação centro-periferia.

 

 

 

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SWAP CAMBIAL REVERSO: mais um sofisticado instrumento derivativo criado pelo bacen para encher o bolso das instituições financeiras, por Léo Nunes

Postado em 21 de Maio de 2008

RIVE GAUCHE

Léo Nunes - Paris - Os chamados instrumentos derivativos têm sido cada vez mais utilizados como armas de política cambial e também como formas não-convencionais de transferência de renda para as instituições financeiras. Os derivativos são conhecidos pela sua obliqüidade e, por tal razão, são inacessíveis à maior parte das pessoas comuns. Neste texto, explicaremos sucintamente o funcionamento do swap cambial reverso, que é o principal instrumento derivativo utilizado pela autoridade monetária para intervenção no mercado de câmbio. Em seguida, mostraremos como este mecanismo tornou-se um importante instrumento para encher os cofres das instituições financeiras.

O swap nada mais é do que uma operação de troca. No mercado de derivativos, por exemplo, dois agentes, que possuem ativos diferentes, podem trocar o rendimento dos mesmos numa data futura previamente acordada. No caso do swap cambial reverso (1), o governo paga, numa data futura, uma taxa de juros (o certificado de depósito interbancário - CDI) e recebe em troca a variação do câmbio, no caso de uma desvalorização do Real. Caso haja valorização, o Banco Central paga o CDI e a apreciação da taxa de câmbio.

Mas por que a autoridade monetária faria tal sandice? A resposta é razoavelmente simples. Ao vender swap cambial reverso, o governo aumenta o preço do dólar futuro, pois é como se “apostasse” na desvalorização do Real. Por arbitragem, o preço do dólar spot seria pressionado para cima e a apreciação da taxa de câmbio seria evitada. Entretanto, a autoridade monetária não tem conseguido sucesso com tal instrumento.

Como é sabido, uma operação de derivativos só ocorre quando há divergência de opiniões, ou seja, um agente só troca seu rendimento por outro ativo se achar o segundo mais atraente. No caso do swap cambial reverso, a operação só ocorre porque alguém, a despeito de toda a expectativa do mercado no sentido da apreciação da taxa de câmbio, devido à absurda política de juros, aposta na depreciação do Real. E este alguém é exatamente o Banco Central. Portanto, enquanto a enorme maioria dos agentes aposta na apreciação da moeda doméstica, apenas a autoridade monetária segue no sentido contrário, sancionando as operações.

Desta forma, as instituições financeiras ganham a taxa de juros, que já é alta, adicionada da apreciação cambial no período. O Banco Central, por sua vez, transfere renda a estes agentes, sem sequer atingir o objetivo de evitar a apreciação do câmbio. Segundo o competente jornalista Rogério Lessa (clique aqui para ler reportagem), o Bacen desembolsou R$ 47 bilhões relativos apenas à apreciação do câmbio em 2007.

Só para se ter uma idéia, apenas esta rubrica representa quase metade dos gastos do governo com Previdência, mais do que três vezes o valor utilizado para programas assistenciais e do valor utilizado nas obras do PAC. Por conseguinte, a luta contra o rentismo atingiu um estágio inimaginável, na medida em que o sistema financeiro tem utilizado sofisticados instrumentos de derivativos, obtusos para a maioria dos cidadãos e sob justificativa “científica”, para criar mais um canal de transferência de renda para a elite rentista.

(1) O nome advém do swap cambial, que era um instrumento utilizado quando havia tendência à desvalorização do Real. Esta operação era o oposto do swap cambial reverso.

Os inocentes do Leblon

TUDO SOBRE SWAP CAMBIAL REVERSO

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PARA SALVAR A PELE, SARKOZY IGNORA ORTODOXIA E UE

Postado em 15 de Maio de 2008

RIVE GAUCHE

 

Léo Nunes - Paris - A União Européia deve enviar um “aviso” ao Elysée no que diz respeito à questão fiscal. Segundo o comunicado, a França não deve ter um déficit fiscal que ultrapasse a marca de 3% do PIB em 2009 (clique aqui para ler matéria do diário francês Le Figaro).

 

No entanto, o presidente Nicolas Sarkozy não tem demonstrado muito interesse pela questão. Ele possui a pior avaliação da história da V República. Isto significa que precisa salvar sua pele. E rápido. Nada mais natural do que abandonar a ortodoxia e investir na política fiscal para sustentar o já pífio crescimento francês.

 

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